sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Por que eu defendo a monarquia?


Antes de iniciar a leitura deste texto altamente revolucionário, faça um teste de QI, pois só os inteligentes vão enxergar as verdades descritas logo abaixo. Se seu teste acusou um mínimo de 125 pontos, prossiga na leitura. Se não, você vai pensar que o rei está nu.

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Em todo país que possui uma monarquia existe uma família real. Ora, não preciso de mais argumentos. Se somente uma família é real, as outras simplesmente não existem. Dessa forma, por que gastar fosfato pensando em políticas públicas e et cetera com o irreal?

Imagine só. Nada de políticas assistencialistas, nada de igualdade econômica, empregos, nada de esgoto tratado!

Porém, se minha premissa estiver errada, e os irreais, paradoxalmente, existirem — o que inclui as suas fezes , não há escapatória e da mesma forma me alegro:

Ou as injustiças acabam, pois só existirá uma família de verdade. Ou, sem esgoto, a merda vai voltar a fazer parte da rotina das cidades, e os ventos vão trabalhar para que o seu cheiro seja inalado por todos os narizes que, gostando ou não, serão obrigados a sentir sua presença.

Aí sim, amigos, as pessoas entenderiam qual é, de fato, o significado de “Viva La Merda!”

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Eronia


“É uma droga” – foi o que respondeu a criança de nove anos de idade ao primo que perguntara qual o significado de “ironia”. Essa com certeza fora a melhor da noite. Bem, a melhor do ano, até então.

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No meio da madrugada de quinta-feira, durante a guerra entre a vontade de dormir e a ausência de sono, assistia a um documentário sobre o efeito da heroína sobre um músico que admirava, até que o celular tocou o tema da fase “Las Vegas” do jogo Top Gear. “Puta burrice tremenda colocar esse toque para mensagens”, pensou.

“Rock épico dos maluco num lugar de playsson nessa sexta. Bora?”

Só respondeu a mensagem quando já estava a caminho do local da festa: “Nóis”.

O amigo que enviara o convite ligou revoltado para o sofredor de insônia no momento em que recebeu a resposta demorada.

- Véi, tu ta de sacanagem. Por que só confirmou agora? Logo agora que já tinha aceitado meu fado de passar a noite assistindo pornografia vietnamita! – esbravejou ao telefone o amigo pouco sociável.

- Mano, para de show. Você mora a menos de 15 minutos da parada. Daqui de onde eu tô, ainda falta uma hora e uns quebrado pra chegar nessa merda. – Sem comentários para o palavreado de dois jovens que há pouquíssimos anos atrás se masturbavam assistindo ao programa “Sabadaço com Gilberto Barros”.

Uma hora e 28 minutos depois, os jovens ingeriam o primeiro gole de bebida alcoólica.

A percepção do, já semi-bêbado, rapaz que se encontrava a dezenas de milhas de sua casa foi sofrendo alterações consideráveis ao longo das garrafas long-neck de cerveja associadas às doses de tequila.

“Engraçado mesmo é pensar que essa merda é feita duma planta que parece babosa! Agave! Isso lá é nome de planta? Esses mexicanos são todos malucos mesmo, só pode. Irado mesmo seria se a tequila fosse bem vermelha. De um vermelho vibrante. Aí, tomaríamos red shots, sacou?”. Seu amigo olhou para ele com uma cara engraçada que o falastrão logo conectou ao significado “sorria e acene”, isto é, seu interlocutor não entendera nada do que havia dito.

Não entender o que o especialista em tequila dizia era quase tão previsível quanto saber que aquela noite ia ter um final inusitado; óbvio, falava engrolado e com tal velocidade que as palavras saíam de sua boca com velocidade muito superior ao bater das asas de um beija-flor.

Enfim a “fase Don Juan” chegava. Aos poucos os dois aventureiros se sentiam cada vez mais atraentes até notarem que uma das garotas mais belas da festa – do universo, como pensavam – estava olhando para os dois.

Chegamos num momento em que precisamos de nomes para os personagens, mas como não garanto que essa história seja fictícia, preservarei os nomes pelos quais minha mente resolveu chamá-los. Sendo assim, chamaremos o fã de músicos ex-usuários de heroína de Juanito e seu amigo apreciador de pornografia oriental de Donizete. Quanto à gostosa, bem, chamaremos de gostosa, mesmo.

Com um andar um tanto quanto trôpego, Juanito vai ao encontro da gostosa, impulsionado - literalmente – por Donizete.

- Oi. – Disse o pedaço de mau caminho, péssima expressão, dicção e gesticulação, Juanito.

- Olá – Respondeu a gostosa.

Duas horas depois os inseparáveis amigos se encontram dançando no salão. Juanito se apóia no chão com o braço direito, enquanto rebola e faz movimentos de vai-e-vem com o braço esquerdo. Donizete rebola por cima de Juanito com expressões de prazer e o cabelo desgrenhado.

Quem olhava jurava que os dois tinham experiência no ramo da pederastia, mas não podia ter certeza. Até que Juanito se levanta, sobe numa mesa e grita – mais alto que o funk: “Atenção para um pronunciamento oficial do secretário de estado, Donizete”.

Donizete desatou a rir, enquanto substituía seu amigo no palanque improvisado e berrou:

“Senhoras e senhores, em verdade, eu, secretário estadual de pederastia e assuntos homoeróticos, vos digo: ninguém é de ninguém!”.

No outro dia, os dois acordaram no campus da universidade onde estudavam que ficava a menos de 10 minutos da boate onde se divertiram.

Donizete: “Cara, lembro de porra nenhuma de ontem. Só uns flashes”.

Juanito: “Mermão, só sei que meu salário todo foi pro saco”.

Um minuto constrangedor de silêncio enquanto os dois refletiam em suas respectivas condições existenciais se passou, até que:

Donizete: “Véééééei, e aquela gostosa que tu trocou idéia ontem?”.

Juanito: “Ah, nem peguei”.

Donizete: “Jura? Depois de 15 minutos, se não pegou, não pega mais! Tu tem que ser mais rápido, cara”.

Juanito: “Véi, você sabe que sou um cara proustiano.As pessoas têm a chance de se tornarem mais interessantes quando você não avança trop vite”.

- Quê?

Fim.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Nu, Desci


Essa era apenas uma das muitas brincadeiras que fazia com o próprio nome. Sujeito forte, moreno de olhos verdes - com cristais marrons -, Nudeci ostentava seu bigodão e os cabelos grisalhos; Na verdade já estavam eram brancos, mesmo.
- Desce daí! Sofá não é lugar de ficar pulando. Para de caçar chifre na cabeça de cavalo, rapaz! - pouco repreendia o neto, mas sempre o fazia de forma energética e com um tom de voz exclusivo para aquela situação.
Nascido em 1937, no dia 18 de setembro, Nudeci era pai de nove filhos, um deles fora do casamento. Perdera outros dois antes de completarem um ano, ambos fruto do casamento com sua amada Terezinha.
De Governador Valadares, em Minas Gerais, onde nasceu, passou por muitos "causos" até chegar em Cariacica, no Espírito Santo.
Teve a "solitária" que só foi expelida de seu organismo após a ingestão de uma dose da branquinha. Nem remédios tarja preta davam conta do verme.
Já havia saltado de um caminhão em movimento; encabeçou um abaixo-assinado para que as casas da região onde morava - Bandeirantes, em Cariacica - recebessem água encanada.
Mas o mais espantoso era sua habilidade - nunca comprovada - de fazer fogo apenas com as unhas. Sempre ressaltava que o fogo só aparecia ao pronunciar infinitas vezes o mantra "ó bobolhando".
Bobo mesmo o neto ficava quando o avô sabia exatamente quais pedras estavam na mão, e de quem, durante uma partida de dominó. Mas o velho não era muito chegado em perder, não. Chegou mesmo a recolher as peças do dominó ao tomar uma "bicicleta" do neto.
Quantas vezes não esteve em seu ateliê/bar/ponto-de-jogo-do-bicho/ loja-de-artigos-confeccionados-em-madeira, conhecido como "boteco", ouvindo a rádio "Espírito Santo" e fumando seu cigarro?
Não sobrevivera para ver seu neto, que anos antes lhe aplicara a famigerada "bicicleta", trabalhando na rádio que tanto ouvia. Aquele mesmo neto a quem ofereceu uma hóstia na igreja onde era ministro da eucaristia, mesmo sabendo que o jovem não havia feito a primeira comunhão.
Faleceu em 2009, no último mês daquele ano. Aquele homem tão forte que em um ano havia sido derrotado pelo câncer.
Aquele homem. Meu avô. Meu pai.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Torrente


Olhava para o céu.
Apesar de estar enclausurado num ônibus, sua mente voava como uma águia etérea, que percorria as maiores distâncias em segundos, além de não fazer distinção entre o tangível e os sentimentos.
Nesta noite o firmamento lembrava uma folha de papel carbono que vez ou outra era virada e tinha a parte mais clara exposta.
Acima dos edifícios, árvores, fios e toda a parafernalha que constitui uma cidade grande em pleno início de século XXI, as nuvens carregadas pareciam esperar apenas um sinal para se derramarem sobre asfaltos impermeáveis.
Em intervalos de tempo diferentes, a luz emitida por elétrons excitados alcança sua retina e o céu fica branco.
Sua mente-águia resolveu sobrevoar lugares obscuros à sua razão, como a Física.
Muitos metros acima do ônibus onde se encontrava, uma gotícula de chuva precipitou-se e, enquanto descia em queda livre e ganhava cada vez mais velocidade, sofreu alterações de percurso proporcionadas pelo vento que fez com que seu destino fosse a nuca do jovem que voltava de um dia de trabalho.
Curioso. Se sua trajetória fosse registrada em um filme - ou num desenho, quem sabe -, ficaria claro que aquele encontro fora uma obra do destino.
Como pôde uma gota de chuva passar por uma fresta tão pequena na janela do automóvel e se chocar justamente contra a nuca desse jovem que há pouco estava tão longe?
No terminal, as gotas que caíam eram mais robustas que a jovem e ansiosa gotícula que se chocou contra a pele do rapaz. Uma poça se formou e refletia a imagem da luz do poste, que ficava deformada com as oscilações na superfície da mesma.
E mais um ônibus parou e abriu suas portas.



x' = Julgamentos a posteriori são complexos demais para a mente humana.
x" = A Física idem, mas só para a minha mente.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Ruim Com Eles, Pior Sem Eles

O terminal:

Acabara de saltar no Terminal de Laranjeiras – que não demonstrava nem um pouco de satisfação ao vê-lo, muito menos sorriu – e correu para o banheiro para se aliviar.

Enquanto o alívio tomava conta de seu ser, Frodo notou um jovem que estava no recinto insalubre junto dele. O garoto cheirava cocaína como se quisesse fazer nevar dentro de si. Frodo manteve-se indiferente ao aspirador de pó, pois notou um senhor de idade, que usava o mictório ao lado, apenas uma fração de segundo depois de sentir a presença do pequeno drogado. Esse sim prendeu sua atenção. Por desagradáveis oito segundos Frodo encarou o velho, não acreditava na cara de pau deste, que durante os oito segundos sequer fez menção de desviar o olhar de seu pênis. Frodo lavou as mãos e fugiu correndo do alcance visual do manja-rola.

Na fila do 506 tudo correra bem. Seu fone de ouvido resolveu estourar uma rebelião e não funcionou por mais de quinze segundos. Nesse curto intervalo entre uma música do Darkthrone e outra, Frodo ouviu sobre a violência crescente de um bairro cujo nome não significava nada para ele, e um trecho da história de um rapaz que queria dar cabo à própria vida porque sua namorada disse que não gostava de seu novo corte de cabelo. A história era tão promissora que Frodo desistiu de escutar música para ouvi-la até o fim.

Outra frustração. No fim, o cara entrou na casa da namorada. Frodo não escondeu um sorriso de satisfação pervertida ao pensar no casal desconhecido fazendo sexo, mesmo com o novo corte de cabelo do macho, que, julgava, seguia o modelo do corte do Neymar.

Seu sorriso esmaeceu ao notar que se encontrava na fila do 503 e que um 506 acabara de partir.

A viagem:

Dezesseis minutos depois, entrou num ônibus lotado, mas isso não foi problema. Em apenas quatro minutos de viagem, conseguiu sentar no lugar de um cobrador anão que descera do ônibus.

Sentado ao lado da janela, Frodo olhava pro céu nublado com cara de quem estava fazendo cosplay de Daron Malakian no clipe “Lonely Day”. Mas isso não é nem um pouco surpreendente, pois nosso valente guerreiro estava, de fato, ouvindo “Lonely Day”.

Mais do que de repente as batidas de funk surgiram no fundo do busão. O ônibus estava em Carapina àquela altura.

Em frente ao aeroporto Eurico Salles foi a vez de uma greve paralisar o funcionamento de seu fone. O esquerdo. Sempre o esquerdo!

Resolveu abstrair da sua condição existencial e tentou “curtir” o funk. Quando escutou “ela balança o cu na vara”, teve duas reações quase simultâneas.

Primeiro pensou na capacidade de obliteração de qualquer noção de convivência humana que provinha do funk, e concluiu: são visionários.

Em segundo lugar decretou que aquele dia era, definitivamente, um dia ruim, mesmo que fosse sua folga.

Mal finalizara mentalmente sua carta de suicídio e o ônibus atropelou uma velhinha.

Viagem interrompida / Mais um terminal:

Morte súbita. Frodo quis chorar. Ela foi o último elemento que entrara na sua pesquisa: noventa por cento dos velhinhos têm cara de bonzinhos, não importa o sexo, muito menos o passado. Ela fazia parte dos noventa. Uma pena, pensou.

Outro ônibus veio e Frodo completou o resto do trajeto com relativa paz. Espera, acho que não dei ênfase o suficiente na palavra “relativa”. Crianças berrando e violência sonora – funk – podem caracterizar distúrbios relevantes na viagem.

Enfim, Terminal de Jardim América.

Correu para não perder o ônibus, e sua passagem pelo terminal não teve traumas.

Como até o diabo tem momentos de sorte, Frodo foi tranquilo nos últimos vinte e três minutos de viagem, inclusive, ouvindo música.

A descoberta / A visita:

Ao descer do ônibus, em frente ao seu portão, Frodo chutou um pequeno objeto. Abaixou-se e pegou o que descobriu ser um anel. De plástico.

Frodo olhou para o anel como se este fosse um tesouro perdido de Atlântis e teve apenas um desejo: ser invisível.

Queria desaparecer do mundo, fugir das relações sociais e, principalmente, sumir da frente de qualquer motorista de ônibus.

Durante seus devaneios, Frodo entrou no modo “piloto automático” e já estava sem os tênis quando se sobressaltou com um visitante inesperado.

Gandalf adiantou-se das sombras e fez um breve discurso:

- Desamarre esta cara, jovem.

Não importa se você tem sorte ou não. O que realmente importa é o seu valor, o seu caráter.

No mais, já que falei de valor, acompanhe meu raciocínio. O transporte público deveria ser gratuito, mas não acha que menos de três reais são pouco frente ao confronto com novas histórias e vidas?

Ônibus. Ruim com eles, pior sem eles.

Ao término do monólogo, Frodo pensou com seus botões:

- Por isso que não gosto desse velho, ele só é útil com suas magias.

Pelo menos não tem ônibus nas Terras Imortais.

FIM

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Receita


1 - Pegue qualquer trecho de sua percepção de realidade.
2 - Reflita sobre essa pequena amostra de caos por alguns minutos, em fogo baixo, afinal, somos seres racionais, não passionais.
3 - Faça uma análise. O quê? Quem? Como? Onde? Quando? Por quê? Sistematize o caos.
4 - Refogue suas mágoas.
5 - Adicione uma pitada da segunda lei da termodinâmica à sua tese.
6 - Sistematize os microestados novamente.
7 - Deixe a dialética secando até anoitecer.
8 - Escreva a frase "O destino é inexorável" em cima do seu preparado.

Pronto, é só comer e esperar sua mente digerir o seu passado.

PS: Quando for evacuar suas conclusões não se esqueça:
Viva La Merda!

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O Sobrevivente



Navegava em seu mar de solidão.

Navegava em seu mar de ignorância.

Navegava em seu barco sobre águas plácidas.

Testa larga, nariz adunco e olhos desesperançados. Era como um comandante viking, porém, sem braceletes, sem vitórias, sem deuses e sem glória. Não passava de um pobre homem sem companhia, sem rumo e sem objetivos.

Era noite.

A visão daquele barco naquela imensidão de água negra formava um quadro lúgubre. A solidão era tão latente que nem as estrelas o encaravam. Nem a majestosa lua aparece nesse quadro.

Sentia uma vibração estranha desde o crepúsculo.

Ondas de insegurança invadiam o seu corpo ao mesmo tempo em que as ondas do mar viam de encontro ao seu barco.

O mar ficava cada vez mais agitado e o navegador sentia que a hora estava chegando. De súbito corre para o interior da embarcação e retira um colar de dentro de uma maleta. O objeto toca seu peito por sobre uma camisa surrada e suja.

“Finalmente. Finalmente chegou a hora”, pensa.

Após tantos meses navegando a esmo não sabia mais se estava perto de algo. Sabia que o mundo era redondo e sabia que ele dava voltas, mas volta e meia achava que a Terra se resumia ao mar contínuo e calmo.

Mas a hora havia chegado.

O mar está cada vez mais revolto e o marujo aguarda. Apesar de não ter nada que o prenda a esta vida, não vai se deixar entregar tão fácil. O instinto é mais forte que sua depressão.

Saíra para o mar para fugir, mas o destino não se engana.

Ondas fortes batem contra a embarcação. O barco chacoalha e a chuva espanca seu corpo de forma violenta. O “anônimo” – nome carinhoso que dera ao barco roubado – inclina-se num ângulo perigoso, à beira de um naufrágio. O homem sobe no mastro, desamarra as velas e sente a chama da esperança ser ofuscada por um brilho branco-azulado bem próximo ao seu rosto. Com o susto veio a queda; e a escuridão.

No céu, raios se entrelaçavam como veias de um braço poderoso, gerando uma bela imagem que ninguém contemplava.

Enquanto o fugitivo permanecia desmaiado, dois raios caíram no seu barco. Para sua sorte, madeira não conduz energia muito bem. No entanto, não se pode dizer o mesmo com relação ao fogo.

Labaredas altas lambiam aquele corpo adormecido, mas as ondas se encarregaram de empurrá-lo para uma tábua que flutuava intocada pelas chamas.

Algum tempo se passou.

Dor.

A primeira coisa que aquele ser sentiu foi dor. Sentia sua pele arder, o sal o incomodava e sua cabeça parecia estar sendo esmagada pelo martelo dos deuses. Mesmo com os olhos fechados, notou que era dia. Para sua surpresa, sentia toques. Humanos ou de animais?

Se arrependimento matasse esse homem nem teria presenciado o fogo-de-santelmo. Era um fugitivo dos mais clichês. Fugira do seio de sua família por motivos incertos. Fugira de sua vida entediante.

Decidiu abrir os olhos. A luz se apressou em fazer sua pupila se contrair, mas uma parcela dessa luz chamou sua atenção. A luz que era refletida por um corpo já bastante conhecido seu. Sua mulher segurava-o no colo com os olhos marejados.

A euforia peremptoriamente tomou o lugar da dor.

Todas as reflexões de meses se foram. A vergonha, o arrependimento, a saudade, a solidão, as dúvidas. Tudo passara.

Com um sorriso no rosto, aquele resquício de homem pensava: “Um raio pode cair duas vezes no mesmo lugar”.

Mal sabia o homem que essa já era a segunda vez em sua vida.

E para aqueles que questionam a probabilidade disso ocorrer, eu lanço uma pergunta.

O que significam chances e porcentagens diante do destino e do amor?