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sábado, 1 de agosto de 2009

Viva La Merda! II



"Quando era garoto e folheava o Antigo Testamento ilustrado para crianças, via nele o Bom Deus em cima de uma nuvem. Era um velho senhor, tinha olhos, nariz, uma longa barba, e eu dizia a mim mesmo que, como tinha boca, devia comer. Se comia devia ter intestinos. Mas essa idéia logo me assustava, porque eu compreendia espontaneamente que existia uma incompatibilidade entre a merda e Deus, e, por dedução, percebia a fragilidade da tese fundamental da antropologia cristã; segundo a qual o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Das duas uma: ou o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus - e então Deus tem intestinos -, ou Deus não tem intestinos e o homem não se parece com Ele. Para resolver este maldito problema, Valentino, Grão-Mestre da Gnose do século II, afirmava que Jesus 'comia, bebia, mas não defecava.'."

Continua...
Trecho adaptado da obra "A insustentável leveza do ser" de Milan Kundera.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Viva la Merda! (1)



"Só em 1980 soube-se da morte do filho de Stálin, Iakov, por um artigo publicado no 'Sunday Times'. Prisioneiro de guerra na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial, ele ficou num campo de concentração junto com oficiais ingleses. Tinham latrinas comuns. O filho de Stálin sempre as deixava sujas. Os ingleses não gostavam de ver as latrinas sujas de merda, mesmo que fosse a merda do filho do homem mais poderoso do universo. Chamaram-lhe a atenção. Ficou aborrecido. Repetiram as reclamações e o obrigaram a limpar as latrinas. Ele se zangou, vociferou, brigou. Finalmente pediu uma audiência ao comandante do campo. Queria que ele fosse o árbitro da discussão. Mas o alemão estava muito convencido de sua importância para discutir a respeito de merda. O filho de Stálin não pôde suportar a humilhação. Bradando aos céus atrozes palavrões russos, jogou-se contra a cerca de alta-tensão que cercava o campo. [...]
O filho de Stálin perdeu a vida por merda. Mas morrer por merda não é morrer de mordo absurdo. Os alemães que sacrificaram a vida para ampliar seu império em direção ao leste, os russos que morreram para que o poder de seu país se estendesse em direção ao oeste, esses sim, morreram por uma tolice, e a morte deles é destituída de sentido, de qualquer valor geral. Em contrapartida, a morte do filho de Stálin foi a única morte metafísica em meio a tolice universal que é guerra."

Continua...
Trecho adaptado da obra "A insustentável leveza do ser" de Milan Kundera.