sexta-feira, 12 de março de 2021

Curioso dos 30

 Puxei o banco alto comido por cupim que temos que trocar, abri meu computador comprado por empréstimo fraterno e entrei nesta página em que, pelo menos agora com a fibra óptica de que dispomos, escrevo binariamente: A vaidade é uma forma de masoquismo.

Resolvi usar um anel com uma borboletinha prata de adorno marotamente furtado. Me vi obrigado a removê-lo para tomar banho quando, ao pensar que iria ter que inserir o dedo num objeto sem utilidade aparente de novo, percebi o labirinto em que havia entrado. Estou tomando banho com caneco e balde pois o abastecimento de água está suspenso após uma série de chuvas. Claro que esse não é o maior dos problemas após esse tipo de evento exclusivamente humano. Sim, tomei banho de balde porque a Água da distribuidora estava muito barrenta após muita água cair do céu. Demasiadamente humana, também, é a expiação diária por causar uma coisinha besta tipo o Aquecimento Global. Jogo mais um balde d'água sobre minha região pélvica. #pas

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Bananeira

 Bananeira


Ainda não se acostumara a passar os dias a sós depois de tantos anos cuidando de tantos filhos. Não que morasse sozinha. A maioria ainda vivia ali. Todos trabalhavam, finalmente. E o marido, aposentado como ela, visitava uma irmã naquela tarde. Decidiu chupar uma das laranjas da fruteira e foi ao quintal. Portava faca e laranja quando saiu sob o sol escaldante. Após quase cinco minutos a observar um par de folhas de bananeira, finalmente caiu em si e voltou a ser dona de seus pensamentos.

- Será que planta faz safadeza? Não, elas devem estar só dançando - deixou o raciocínio no ar por poucos instantes - e eu tô ficando doida. Planta dança, por acaso? - divertiu-se.

Já à noite, em sua cama com o esposo, a lembrança daquele par específico de folhas ainda morava em seus pensamentos. 

- Hômi.

- Hm.

- Cê acredita que eu tava chupando laranja hoje mais cedo no quintal e vi duas folhas da bananeira do vizinho tipo como se tivessem escutando música no vento e dançando?

Só duas? - O velho riu, erguendo uma sobrancelha - As outra tavam cansada?

- Bobo - riu - as outras também balançaram, mas tinha duas que balançavam junto.


***

No dia seguinte, após lavar a louça do almoço e guardar as panelas na geladeira pra janta, foi ao quintal cuidar da roseira, espiou a goiabeira e se questionou se estaria em vida quando finalmente brotasse jabuticaba naquele outro pé. Repentinamente recordou-se daquelas plantas estranhas e foi dar uma conferida do outro lado do espaçoso quintal.

"O mal elas não praticaram porque são só plantas", sussurrava consigo mesma enquanto encarava as folhas, agora quebradas. "Mas o bem também não dá pra fazer se você é só uma folha de bananeira", concluiu. 

As mesmas duas dançarinas do dia anterior mantiveram a dissidência do restante e eram as únicas quebradas entre todas as folhas dos dois pés de banana que cresciam no terreno do vizinho, rentes ao muro que fazia a divisão entre os quintais.


***

Como tinha muitos filhos, alguns dias eram dedicados a eles, presencialmente, como nos fins de semana, ou em pensamento, dado que era muito preocupada com o bem-estar de todos da família. Até mesmo esqueceu-se da dupla de folhas por alguns dias, com exceção de uma vez, que, enquanto cozinhava, questionou em pensamento se a ruptura causada pelo vento faria com que as folhas secassem e morressem. Como a posição da janela não permitia que enxergasse aquele ponto do muro do compadre, não conseguiu observar naquele instante e voltou sua concentração às cinco panelas que usava para cozinhar ao mesmo tempo com sua destreza.


***

Três dias sem pensar em bananeira alguma passaram, até que se lembrou da morte iminente das duas amigas e foi conferir, após escorar o corpo no caule do pé de cacau, as secas e penduradas folhas.

- Será que elas já morreram? Será que até isso elas fizeram juntas? - cogitou, chupando uma laranja.


***

Um dia, quando foi catar a roupa do varal, teve sua atenção atraída por aquela parte do muro.

- Seu Arnaldo, o senhor cuida que esse cacho ali tá despendendo pro meu quintal, hein - sorriu e o cumprimentou, deixando o protocolo pra depois da pilhéria. 

- Ô vizinha, se quiser pode cortar pra vocês que o cacho do outro pé já dá pra fazer bolo e até doce. Às vezes esse pé parece que queria mesmo era ter nascido do outro lado.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Emulsão

"O sabão lava meu pezinho, lava meu rostinho, lava a minha mão. Mas Jesus pra me deixar limpinho quer lavar meu coração". Isso tava num CD que eu ganhei. Os caras sabiam mesmo como cantar! Só que, pensando bem, não acredito que tomava banho de sabão à época. Sempre foi sabonete, não? Qual a diferença entre sabão e sabonete? "Sal do ácido gordo empregado" e "alcalina" não necessariamente acrescentam muito no momento. Mas se a "sujidade" for "emulsionada" em água tá ótimo. Ou a gente pode começar com um grave problema mental atrelado a alguns relacionamentos marginais e tóxicos, roubar gordura humana de alguma clínica e destruir o sistema crediário global, também. Ou, pelo menos, aprender com profissionais de verdade enquanto adaptamos uma história fictícia a outro meio de comunicação que impulsiona o aumento das possibilidades lucro-narrativas do produto em questão. Uma coisa é certa: saponificação não é mais uma palavra monossêmica, ainda bem. 

É imperativo que o ato de lavar as mãos tenha uma duração mínima para que deem-se os processos químicos necessários no combate à proliferação do Sars-CoV-2. Existe pelo menos um vídeo que demonstra isso de forma irrefutável. Na Banheiro do Gugu, ao contrário, existia um tempo máximo para conseguir agarrar o sabão. Ou sabonete. "Hoje eu ia entrar com o Neymar, eu ia entrar com o Cauã Reymond", disse Luiza Ambiel a Luciana Gimenez enquanto se submetia à avaliação de uma Máquina da Verdade pouco antes de resgatarem a imagem de Jô Soares na banheira com ela. "Quando o mal faz uma manchinha eu sei muito bem quem pode me limpar. É Jesus, pra me deixar limpinho, quer meu coração lavar".


sábado, 6 de janeiro de 2018

Trabalho Textual Ensaístico 1. Tema: Especismo

Há registros quase esquecidos de um ancestral comum a todas as espécies chamado ser humano. Todos habitavam um esferoide de nome Terra e as distinções entre os indivíduos da raça humana eram mínimas. Formados pela mesma quantidade de cromossomos, dividiam-se em nações e era a economia o pricipal meio de definição de status, direitos, possibilidades e deveres de cada um.
O advento do assim chamado “espírito científico” resultou em um crescimento vertiginoso da população daquela raça. Muita gente reunida em um pequeno lugar (estima-se que o planeta possuía cerca de 13 mil quilômetros de diâmetro) e munida de tecnologias então incipientes, como a internet e as aeronaves, resultou no início da exploração espacial.
A história se desenrolou de modo rápido. Grosso modo, notaram que as diferenças culturais e agendas políticas transcendiam fronteiras. Conflitos internos foram extintos junto com a já obsoleta ideia de nação e a adoção do conceito menos arcaico de esferas foi ponto pacífico. Cada indivíduo crescia em uma determinada esfera previamente escolhida pelos progenitores e ao chegar a vida adulta optava se queria mudar-se dali para um lugar onde as relações sociais se davam de um jeito que lhe agradasse mais do que aquela onde nascera aleatoriamente ou tornar-se um membro ativo de sua esfera.
Temos ainda hoje registros de um incrível amálgama de sociedades de práticas distintas, belas e bárbaras, todas praticadas naquele mesmo lar ancestral. A proliferação e o consequente acirramento entre esferas de ideais destoantes somados ao avanço irrefreável das tecnologias levou a um acordo comum que determinava a dispersão dos habitantes da Terra para um sem-número de sistemas estelares distintos. Cada esfera com seu esferóide, foi o lema à época.
Pouca coisa restou desse passado tão remoto, apesar das façanhas tecnológicas que sobrevivem ainda atualmente, mas há de se destacar a crença já difundida séculos antes de que o ponto de divergência era iminente e o pacto da boa vizinhança não mais se sustentaria. O  uso do prefixo “pós” em conceitos importantes àquela época, como em pós-verdade e pós-modernismo, para ficar com poucos exemplos, evidencia tal noção.

Hoje, algumas espécies tentam emplacar planos imperiais que chocam-se com o estabelecido Pacto Universal das Bolhas. A centelha entre espadas toma forma e o respeito entre as espécies quase não possui adeptos. Muitas das novas civilizações optaram pela negação das nossas semelhanças e passaram a alardear as diferenças. A tolerância foi esquecida com a história. Vivemos em tempos de ebulição. E é na fervura que as bolhas se chocam.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Lembranças Efêmeras de uma Mente Sem Brilho - IV

Ver da janela, no meio da madrugada, um horizonte impedido por prédios que despontam acima da roupa secando em um varal curto protegido por uma grade imunda de resíduos da indústria brasileira me deixa muito mais sossegado do que minha antiga vista. Antes, pequenas casas, caixas d'água e muita natureza me forçavam a lembrar da pecaminosa solidão que sentia, afinal, estava no seio de minha família, num ambiente tão aprazível quanto bravamente conquistado por gerações anteriores. Era errado. Criaram aquilo. Por eles e por mim. Até a ebriedade era desrespeitosa. Não mais. Agora a vida se desenrola num ambiente impessoal. A despeito dos significados atribuídos por mim a cada parte do novo lar, essa casa não me pertence e não me é de direito. O que resta sobra em suficiência. Mil lares, mil famílias, mil solidões compartilhadas numa simples olhadela. Mesmo tratando-se de uma visão romântico-niilista da contemporaneidade, essa é uma realidade que me satisfaz. Contemplar o horizonte (semi)natural gerava a sensação de estar nu contra a grandeza da Vida. Agora, a vida se esconde em segundo plano, atrás das rotinas, dentro da casa da qual me despeço toda vez que busco algum pertence. Pertencer à lógica onde sou apenas um e não mais "eu" me tranquiliza. Abro uma garrafa de cerveja ou fumo um cigarro ou checo as redes sociais no meu smartphone. Tanto faz. Não me sinto mais sozinho.

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Menos céu implica menos metafísica.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Lembranças Efêmeras de uma Mente Sem Brilho - III

Vem, vida. Mas vem com raiva. Vem com sangue no olho. Você está atrasada. Eu já nasci. Já estou aqui. Gol fora de casa tem peso. Vem. Mas vem forte. O time é sem estrelas mas é unido. Joga fechado, trancado. Chutão ganha campeonato; golaço, nem sempre. O time é unido. Não tem craque mas tem raça. Você está irremediavelmente atrasada. Se vira. O seu banco é forte e não respeita o limite de substituições. O meu mal tem goleiro reserva. Eu sei. Eu não me importo. A bola rolando dá o tom. O resto é pose.

Você me queria vulnerável. Me queria fraco. Contra ataque fulminante. Foda-se. A gente joga na retranca. Queria raiva, queria ódio. Assim fica fácil. Desorganiza. Aqui não. O camisa 10 bate o pé e fica mesmo sem força pra chutar a maldita bola.n Ah, mas ele fica. O filha da puta teimoso não sai nem sangrando pelas unhas.

Resignação, vai ter. Como ganhar de um time recheado de estrelas? Bilhões na arquibancada vaiam. Torcem a favor das estrelas. Amor vende. É bonito. Golaço. A raça não. Ela gera cicatrizes, sangue. Talvez umas fotos bonitas. Mas não é o que se procura. A gente quer beleza. Dentro da subjetividade que todos temos ou daquela vendida nas capas do dia seguinte. A gente comemora gol de cagada, quando a bola bate e quica mas entra. Mas é meio triste ganhar assim. Mesmo que no último minuto com dois a menos. Sejamos sinceros. A bicicleta na pelada da quadra da pracinha do bairro é mais maneira que o gol de canela sem querer na final da Copa do Brasil. Só não é pra quem fez, pra quem torceu. Mas sua torcida é infinitamente maior do que a minha. Você tá aí desde que inventaram o futebol. Meu time foi criado esses dias. Nem tem tradição. Nem títulos. Porra nenhuma. Só uns apaixonados sem rumo que gostaram das cores, dos cânticos, sei lá. Mas vestiram a camisa. Você não, você tá em casa. Não é que queira o fracasso dos pequenos, é só o caminho natural das coisas. É natural os grandes vencerem. Natural.

Raiva a gente tem. Raiva você suga da gente. Mas a gente é bicho ruim. A gente é vida loka. A gente cresceu pocando o dedo em meio fio. Você vai ganhar. Vocês vão, é sabido. Vai rolar resignação, nós sabemos. Mas raiva não. A cabeça sai abaixada. Mas goleada não vai ter não. Cês vão ganhar de 1, 2, 2,5 a 0. Mas os três a zero vocês não conseguem. Porque a gente não torce. A gente joga junto. A gente não entra em campo. Entra em campo de batalha. A gente não joga. A gente vive.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Lembranças Efêmeras de Uma Mente Sem Brilho - II

(Gosto de piadas/trocadilhos/ambiguidades/referências/etc ad nauseam e acho o filme bem fantástico).


O medo de errar nunca me impediu de cometer milhões de erros. Dos catastróficos aos microscópicos. Algumas vezes parecia que simplesmente o mundo não fora feito pra me conter em seu conjunto de flutuações estatísticas do que constitui um ser humano. Noutras eu via com clareza (e uma dose particularmente pequena de egocentrismo, dessa vez) que eu é que estava com defeito de fábrica. Mesmo que eu quisesse analisar friamente todos os dados e possibilidades e tentasse ser mestre (que é mais irado que "doutor") da minha própria vida, os dias, sem a menor noção de sensibilidade, continuavam inexoravelmente trazendo novos erros. Mudei de plano. Talvez, ação por ação, escolha por escolha, analisando ~simplesmente~ suas consequências, eu poderia moldar meu futuro. As variáveis eram tantas que meu processador-entre-orelhas deu "telas blues", a tal da tristeza. Metodologia é uma instituição mutável por filosofia. Parti então para a ideia da confrontação apenas das escolhas. Era só avaliar a tabela semi-imutável da minha ética e achar o resultado da função. Errado de novo. Conflitos ético-morais desafiavam a sintaxe da linguagem de programação que construí ao longo da jornada. Sem contar que a impossibilidade bioquímica e física e qualquer junção de uma ciência + sufixo "ica" (se já não estiver presente no próprio nome da ciência escolhida) do livre-arbítrio também afetou profundamente meu id. Ou ego. Ou superego. Não sei. Poderia dizer mais uma vez que sou um cara de Exatas e nada a ver ter feito Humanas porque isso me deixou meio estranho e perdido. Mas talvez a tal da Humanas me deixou mais humano. Portanto, irremediavelmente perdido. Porém, satisfeito em andar devagar e seguir em frente.


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A poesia é uma mentira deslavada. Ou uma verdade escondida. O romance é estelionato puro e simples, mesmo quando transformador. Só a autobiografia é uma mentira sincera.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Lembranças Efêmeras de Uma Mente Sem Brilho – I

(Gosto de piadas/trocadilhos/ambiguidades/referências/etc ad nauseam e acho o filme bem fantástico).


Meus dedos-do-pé já não são mais os mesmos; tenho vontade de dizer algo inteligente, algo contextualizante, algo que mal você bate o olho na tela do computador (não tenho a pretensão de imaginar esse texto impresso algum dia. Papel é coisa séria – apesar de que tem um certo site aí a fim de reunir todo o conteúdo digital já produzido pela raça humana, né? –. Então isso aqui pode ser sério) e fala: esse cara sabe o que tá dizendo e, realmente, os dedos do pé dele já não são mais sequer pálidas sombras do que já foram outrora. Penso um bocado e nada me vem à mente. Estamos, porém, no século XXI e nada me impede de uma rápida pesquisa no Google. Sou, então, introduzido à arte de determinar a personalidade de uma pessoa pelo formato de seu pé. Coisa chinesa/indiana. Milenar. Descubro ter o pé helênico e, tristemente, atesto ser esse o de descrição mais vaga: tenho muitos desejos e sentimentos mas meus “traços importantes” só serão eventualmente definidos se alguém parar para verificar com que frequência e maneira exponho tais fatores determinantes da minha psique. Não sou egípcio (perfeccionista), nem asiático (pacato). A superficialidade das distinções e completa genericidade descritiva me afastam desse ramo da reflexologia podal. Caio, ato contínuo, nas exposições enciclopédicas de tarso, metatarso e falange. Cuboide me lembra do desenho Pokémon e a parte chamada cuneiforme medial me dá a estranha sensação de que os anatomistas querem me forçar a acreditar que a escrita cuneiforme surgiu na Idade Média. Não sou bom em Biomédicas. Nem em Humanas. Mais uma vez me convenço de que deveria ter trilhado o caminho das Exatas.


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"É verdade que você escreve em primeiro lugar para si mesmo, para o leitor que tem dentro de si, ou então porque não pode evitar, porque não consegue suportar a vida sem entretê-la com fantasias; mas, ao mesmo tempo, você precisa peremptoriamente ser lido". 

Rosa Montero. "A Louca da Casa".


E o VLM volta.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Fim

Todos os dias aquele sentimento indesejado me encontrava; aproximava-se, envolvia meu já abatido corpo, por trás, perfurava meu peito, dilacerava minha razão e me deixava a sofrer. Minhas noites eram cópias mal feitas umas das outras. Minha cabeça enuviava, meu peito afundava numa enchente de perguntas que geravam um lamaçal de quase arrependimentos. Relatar os fatos foi o que me restou, tentando extirpar de mim tais experiências dolorosas. Antes, antes de expor o que me afligia, a sensação era de que um dia explodiria por aí.


O laborioso ato de escrever sobre tais angústias teve início após um encontro virtual lamentavelmente ocorrido naquela quinta-feira. Um dia que, mesmo antes, somente oferecia inusitadas frustrações. Não vamos focar nos pormenores, não vale a pena. (Algo vale?) Ou você prefere saber dos ínfimos detalhes? Não, prossigamos.


Era uma estranha quinta-feira onde a vida parecia zombar, de novo, de minhas escolhas. Interessantemente, meu espírito não se abatia tanto com tamanhas frustrações. Naquele dia
ríamos, eu e um amigo, dessa tal de vida e tudo pelo que passamos durante nossa jornada.
Andávamos questionando nossa sanidade e, por mais que isso soe um tanto neurótico, brincávamos com a ideia de que o mundo inteiro havia enlouquecido e éramos os únicos que
aparentemente haviam notado. Aliás, era justamente este o motivo que nos levava a duvidar -
razoavelmente - da nossa capacidade de discernir o real do irreal. Concluímos que relacionamentos fraternais são uma dádiva nesse mundo esquisito em que vivemos.


Eis que ao verificar outra aba do navegador de internet que utilizava para me comunicar, tenho uma estranha sensação, um choque súbito. Lá estava. A me olhar. E era incrível. Seus olhos eram exatamente os mesmos. Seu rosto mudara pouco. Seu cabelo brilhava. Mas, e sinceramente nunca havia visto algo assim até então, era outra pessoa.


A genética pode desafiar a probabilidade quando há tantos humanos vagando por aí.


Meu algoz estava ali. Me encarava com olhar penetrante. Nunca havia visto aquela pessoa, porém, ela era uma cópia fiel da outra designada para pôr fim ao meu lento caminhar. Até agora não sei explicar de onde veio tamanha iluminação, mas eu havia então decifrado o intricado código do fim da minha própria vida. A partir daquele momento não haveria pedido, oração, súplica que me salvasse do fado. Minha vida estava conectada à vida de alguém.


Transtornado, pensei contactar o dono do desconhecido rosto da imagem. Sem dúvida haveria alguma conexão entre ele e o meu executor. Contudo passaram-se dolorosos dias e ainda não reuni coragem o suficiente para enviar minha desesperada mensagem.


Bem, hoje estou aqui, completamente desperto próximo do alvorecer de um novo dia. Não sei a quem recorrer. Não sei se é possível que eu esteja realmente certo sobre tal premonição. Todos os dias abro o arquivo com a foto daquele rosto desconhecido que, porém, me parece assustadoramente familiar e ao mesmo tempo macabro. Sinto sono. Sinto uma aproximação.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A Carta

"[...] A vida. Meus devaneios foram grandes companheiros. Nunca fui considerado uma pessoa distraída, mas vários foram os meus momentos de contemplação e questionamento. Todos os temos, acredite. Até os mais obtusos. E foi num de tais momentos em que senti o impulso de escrever a você.

Leviano, sei bem. Às vezes nos ludibriamos a nós mesmos. Me resta admirar as palavras que surgem da esfera de minha caneta. 

Retomemos o assunto.

Este é o funcionamento da memória: de um armazenamento intangível, uma fagulha recria cenários e pessoas ressurgem até da morte. Conexões sinápticas brincam de ser Deus, arquitetas de emoções e situações.

Desculpe-me. Ainda divago. Falava sobre um pensamento em particular, certo?

Lembrei-me. Naquela noite quente eu só queria passar a limpo todos os meus amores. Amores duradouros e amores efêmeros.Olhares sustentados e olhares desviados. Risos e também lágrimas.

Queria conversar com aquelas que suscitaram em mim as mais variadas formas de dúvidas e desejos. Todos os possíveis romances, todas as bifurcações de meu destino. A colega que amei por meses e sequer beijei; a amiga que se afastou em decorrência de minha única e até hoje amaldiçoada investida; as pessoas que rejeitei; as jovens que, a despeito do ardente desejo, recusei-me a sequer tentar... Tantas situações, tantas ilusões... Realizações, também! Por vezes amei e por vezes fui amado. Poucos foram os momentos em que ambos encontraram-se nos caminhos do destino, é bem verdade. Traí e fui traído. Sabe aquele clichê de que 'até nas roseiras há espinhos'?

Refleti e me convenci do contrário. Não deveria jamais desembaraçar meu passado. Todas as memórias e confusões, tristezas e projeções, eram não mais do que pinceladas na tela da minha vida. Pinceladas dadas com diferentes intensidades, segundo os ritmos do meu coração. Hoje sou o fiel retrato do quadro das minhas experiências..."

– Ah, cara. Chega! Seu bisavô era mó virjão.

– Haha! Né?! Acho que só ontem eu peguei mais mulher do que ele a vida toda.

– É mesmo! Hahaha! Você pegou oito, né?

– Ia ser nove se a Dani não desse aquele ataque de ciúmes. Guarda essa carta velha e pega logo o controle que a porra da fase vai começar.

Do céu, um vovô abençoava o jogo do bisneto com um sorriso desconcertado. E amoroso.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A Grandiosa Final

As estruturas do gigantesco estádio balançavam com tamanha empolgação das torcidas. Mais de 100 mil camisas, laranjas e azuis, pintavam as arquibancadas naquele domingo que prometia fortes emoções. Engana-se quem pensa que os únicos afetados por tal jogo eram os que se encontravam na arena naquela tarde. Emissoras de tevê, rádios, stream na internet e mais algumas variedades de transmissão integravam muitos outros milhões em todo o globo terrestre à emoção do local.

Os times finalmente entram em campo para delírio das torcidas. Litros e mais litros de cerveja são emborcados em bocas sedentas nas arquibancadas pulsantes. Dois representantes de cada time dirigem-se ao centro do campo e juntam-se aos juízes que ali já se encontravam. A plateia delira. Crianças berram... Num país distante, pessoas não muito familiarizadas com o esporte estranham a situação. 

– Dois caras só pra tirar o cara ou coroa? – pensa alto um guatemalteca.

"Cara", diz um dos representantes do time azul. Um dos juízes lança a moeda ao alto, que aterrissa com a face para baixo. "Coroa", anuncia o juiz.

Fim de jogo. Após um ano intenso de disputas, a torcida do time laranja pode tirar o grito de "é campeão" da garganta e comemorar.

– Uai, é só isso? – Se pergunta um argentino – Povo estranho.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Gelo?

Gelo. Água sólida para se mastigar. Formas cristalizadas lutando contra os dentes – e perdendo.
Abaixo de zero. Zero absoluto. Vazio absoluto.
Como lidar com um vazio no peito que quase explode o coração?
Big bang. Do nada, o tudo. Do vazio, um universo. No peito. Universo estranho. Indócil. Indomável. Irascível. O vazio foi a ponta do iceberg. Muito gelo. Muito frio.
Corpo e mente rebelam-se contra a tirania.
Somos a soma de corpo e mente? Sou mais que carne, osso e ilogismos? Quem sou? Matéria? Energia?
Sou a gélida saudade no peito em meio a luta contra o calor de um coração sem ritmo. Saudade do que não aconteceu.
Doente da cabeça, mas quem sofre é o coração.
Sofrer. Fazer sofrer. Esquecer? Viver.
Temperatura amena. Água em seu estado líquido. Beber da fonte. Beber. Saciar-se.
Universo entre orelhas. Grão de areia entre estrelas. Ínfimo...
Fica assim, sem ponto final

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Centro. Começo do ano de 2013.


O expediente havia chegado ao fim e eu estava livre para voltar para o meu aconchego. Bastava pegar um ônibus que me levasse ao Terminal de Jardim América e, no terminal, um outro, da linha 741, levaria-me para o glorioso bairro de Bandeirantes; para minha casa. 

Ocorre que o Centro de Vitória possui uma ampla variedade de lojas e instituições públicas que empregam alguns milhares de capixabas, dos quais boa parte reside no inestimável município de Cariacica, onde ficam os bairros de Jardim América (pesquise os nomes das ruas deste bairro e entenderás) e Bandeirantes, e como a ampla maioria destes trabalhadores termina sua jornada laboral às 18h, os pontos de ônibus ficam parecendo formigueiros.

Pensando no sofrimento que seria enfrentar o transporte público no horário de pico, resolvi dar um pulo na rua Sete de Setembro, historicamente um dos maiores pontos culturais da ilha.

Portando o livro “Demian”, minha segunda leitura do Nobel de Literatura Hermann Hesse, em mãos, decidi parar num bar da histórica rua – que havia sido revitalizada há menos de um ano – para fazer algumas das coisas mais legais da vida de um ser humano ao mesmo tempo: beber cerveja, ouvir música e ler um grande livro.

Apesar de não ter mergulhado tão profundamente na obra (diferente do meu quase afogamento durante a leitura de “O Lobo da Estepe”[1]), eu estava fascinado com a vida de Sinclair, personagem central do livro. Após algumas páginas viradas e alguns goles de cerveja entornados goela abaixo, minha concentração começou a se esconder entre as linhas do texto. Na verdade, foi o som da conversa de um cara sentado a minha direita que dissipou minha concentração.


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– Esse cara aqui engraxa meu sapato há mais de dez anos, acredita? – Demorei uma fração de segundo a mais do que o normal para aceitar que o senhor bigodudo sentado de frente pra mim, escorado na parede do bar, vestido com um uniforme em tons de azul e fumando um cigarro estava realmente falando comigo. “Puta merda, que falta de educação”, pensei, enquanto olhava de canto de olho para meu indesejado interlocutor.

Estávamos do lado de fora do bar, cada um sentado a uma daquelas mesinhas de plástico com propagandas de cerveja e, poxa vida, eu estava lendo um livro e com fones no ouvido, só faltava uma plaquinha de “não perturbe” para ganhar o certificado internacional de “me deixa em paz, sou antissocial”. No entanto, o senhor moreno-queimado-de-sol continuou ignorando completamente a minha própria tentativa de ignorá-lo:

– Confio muito nesse rapaz aqui. Ele é quase da família, não é não, [algum nome que não entendi bem]? – O jovem que permanecia agachado de costas para mim soltou um “hm-hum” e continuou seu ofício.

Curioso, tirei os fones, me virei para o senhor e o encarei, me rendendo ao seu monólogo disfarçado de diálogo.

– Eu tenho uma empresa, sabia? – Disse ele, com um tom de voz de quem acreditava geuinamente que o assunto era de alguma forma importante para mim. Acenei positivamente com a cabeça enquanto ele falava – É. E meus filhos fazem faculdade. Não sei se eles vão manter meu negócio, mas pelo menos eles estão na faculdade. – Ele alternava tragadas e goladas com frases, até que foi interrompido pelo engraxate. Aparentemente o serviço estava pronto.

“Toma. Não, não tenho trocado. Não, o que é isso? Pode ir lá trocar o dinheiro. Eu confio em você, rapaz. Você sabe muito bem disso. Pode ir. Tantos anos engraxando meus sapatos e eu não confiaria em você? Vai, pode trocar o dinheiro”. O engraxate apenas gesticulava, sem dizer nenhuma palavra em resposta. Achei que neste momento eu já estava liberado da conversa obrigatória e voltei a ouvir música e ler meu livro; vi quando o jovem se dirigiu a um outro estabelecimento tentando trocar o dinheiro do bigodudo empresário.

– Tá vendo só? – Voltou a dirigir-se a mim o dono dos sapatos mais brilhantes entre todos os clientes do bar – Confio nesse rapaz, cara. São muitos anos de confiança. Dei cinquenta reais na mão dele sem nem esquentar a cabeça. Tenho certeza absoluta que ele vai trazer meu troco certinho. E se não trouxer, também, não tem problema. Eu tenho uma empresa.


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Resolvi desistir de ler ali e terminar de beber minha garrafa de cerveja enquanto observava um pouco mais da rotina boêmia da belíssima rua. Notei que éramos poucos clientes naquele início de noite, mas o fluxo de pessoas na rua era grande. Pessoas apressadas. Engravatadas. Hippies. Moradores de rua...

… Foi nesse momento que finalmente dediquei um pouco da minha tão solicitada atenção às duas mulheres que bebiam na mesa disposta ao lado do falastrão, também encostada à parede, a “uma hora” (mais ou menos entre o norte-nordeste e o próprio nordeste) de mim. Elas se comunicavam com muitas gesticulações e riam a todo o momento. Se não me falha a memória, uma delas fumava, ambas usavam batom num tom de vermelho muito parecido – ou mesmo igual – e usavam pelo menos uma peça de jeans.

Não sei se sou um cara muito ingênuo ou pouco atencioso, mas demorou um bocado de tempo para eu entender que ambas eram prostitutas. Gosto de entender o ambiente em que me situo e não pude esconder um pequeno riso de satisfação ao entender melhor o que se passava ao meu redor. Apesar de haver um pouco de malícia impregnada no ar, característica de toda essa situação, ainda estávamos no horário de verão, portanto só começaria a escurecer mais tarde, e, por enquanto, a luminosidade daquele dia frio e nublado dava um toque de leveza à toda a situação.

O engraxate voltou o com o troco do seu suposto amigo e partiu, não sem antes ter que recusar dezenas de vezes o convite de se juntar à bebedeira do homem que contratara seu serviço.

Pedi outra garrafa de cerveja enquanto tentava ler de longe as capas de revistas de uma banca de jornais próxima ao bar – o que foi particularmente difícil, dado o meu grau de miopia.


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“A snowstorm blew inside a wolf's eyes/ and the frozen tears covered all the mountainsides/ But then the time got by and the wolf died/ and someday that wolf would be I”.[2]

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O trecho acima é uma das estrofes da música “Death and the Healing”, da banda finlandesa Wintersun. Essa canção tocava em loop no player do meu celular naquele dia.

Eu estava completamente imerso no universo da música quando notei um princípio de confusão na mesa daquele cara a minha direita. Um morador de rua sentou-se a sua mesa e estava bebendo com ele quando o dono do bar chegou e pediu para que o maltrapilho saísse das imediações de seu estabelecimento. Houve um princípio de discussão e o dono do bar espantou o morador de rua, ameaçando-o com uma vassoura. Espantar. O verbo mais indicado para a situação, ao meu ver.

O bigodudo, já embriagado, tentou argumentar com o homem de vassoura na mão que não havia problemas no fato de o indigente ficar ali, fazendo companhia para si. Mas o dono do bar foi irredutível: o expulsou e o expulsaria de novo. Afinal, ele era um drogado que vivia causando confusão nos estabelecimentos da região, segundo seu relato.

Desconfortável com a situação e impotente, levantei-me, bebi o resto da minha cerveja de uma só golada, paguei minha conta e me retirei do local. Fui-me embora de um dos principais pontos de encontro dos amantes do samba no Espírito Santo...

“Ouça-me bem, amor/ Preste atenção, o mundo é um moinho/ Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho/ Vai reduzir as ilusões a pó”.[3]

...Ouvindo uma música da Finlândia, com solos de guitarras distorcidas.

“Time is the death and the healing/ Take your last breath, 'cause death is deceiving/ Time is the past, now and tomorrow/ Days fly so fast and it leaves me so hollow”.[4]

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1 - "[...]'A maioria dos homens não quer nadar antes que o possa fazer.' Não é engraçado? Naturalmente, não querem nadar. Nasceram para andar na terra e não para a água. E, naturalmente, não querem pensar: foram criados para viver e não para pensar! Isto mesmo! E quem pensa, quem faz do pensamento sua principal atividade, pode chegar muito longe com isso, mas, sem dúvida estará confundindo a terra com a água e um dia morrerá afogado" – “O Lobo da Estepe”, Hermann Hesse

2 - Algo como: “Uma nevasca soprou dentro do olho de um lobo/ e suas lágrimas congeladas cobriram as montanhas/ Mas então o tempo passou e o lobo morreu/ E um dia esse lobo será eu”.

3 - Cartola, “O Mundo é Um Moinho”.

4 - Algo como: “O tempo é a morte e a cura/ Dê seu ultimo suspiro, pois a morte nos ilude/ O Tempo é o passado, o agora e o amanhã/ Os dias voam rápido demais deixando-me um vazio”.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A Viagem

"A vida simplesmente se esvai, como a água escorrendo entre nossos dedos. Já me é custoso lembrar de coisas, pessoas e momentos que deveriam ser impossíveis de esquecer".

Dizia as palavras em tom monocórdico, contrastando com uma estranha vontade estampada em seus olhos.

– Pouco a pouco perco meu passado... – continuou – sei que sou seu fruto, mas me sinto alheio a ele; apenas fragmentos ecoam em minha mente. Do futuro... – moveu o braço direito com a palma voltada para cima, em conformidade com a sobrancelha, enquanto dava alguma dramaticidade ao seu tom de voz – Ah, do futuro não tenho expectativas. Mal formulo um esboço e o presente já me atinge, inexorável. Me presenteia com novos entendimentos e novos fragmentos do que passou – murmurou, abanando a cabeça.

Uma suave brisa entrou pela janela do ônibus e moveu seus negros fios de cabelo bastante lisos quando o motorista acelerou para sair da rodoviária . Em poucos minutos a paisagem urbana já tinha ficado para trás, e muitas árvores passavam ao fundo de sua janela. Uma idosa tossiu violentamente três fileiras à frente de onde estava sentado, falando sozinho, sem companheiro algum para a viagem de aproximadamente 36 horas que faria.

– Custei a entender – continuou falando e gesticulando, ignorando a falta de um interlocutor – que não temos tempo para compreender. E o maior custo para saber que tudo se foi, foi ter ido. Dívida paga.

"No fim, só devi a mim".

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Desconexo



“No princípio criou Deus os céus e a terra;
E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas”.
Gênesis 1:1-2


Sua sombra se movia de acordo com o padrão de luzes dos postes acima da sua cabeça, enquanto ele andava pelo pequeno beco naquela noite particularmente escura. À sua frente, quase 700 metros de ruas e becos irregulares até seu ponto de chegada. Na sua cabeça, apenas um objetivo: vingança; e se o prato deve ser comido frio, aquela era uma noite perfeita para tal. Mesmo relativamente perto da linha do Equador, fazia um frio de quinze graus centígrados.

Suas feições estavam obscurecidas pelo capuz de sua capa, as trevas eram suas únicas características visíveis.

“E disse Deus: Haja luz; e houve luz“.
Gênesis 1:3


Com um retumbante pontapé, aquele misterioso homem quebrou a porta que se punha entre ele e aquela luminosa e surrada residência. O súbito jorro de luz em seu rosto tornou visíveis seus olhos marejados e a expressão de dor e desespero em sua face.

Dentro da residência, um homem gordo com uma shotgun o esperava, com sua cara que lembrava um porco e uma estranha expressão de deleite que o fazia salivar enquanto sorria.

“Eu sou o Alfa e o Omega, o princípio e o fim, diz o Senhor, que é, e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso”. 
Apocalipse 1:8


Um estrondo abafou a gargalhada hedionda do gordo enquanto ele disparava sua escopeta na direção do homem encapuzado. O tiro veio logo após os menos de cinco segundos em que ambos se encararam, tempo suficiente para que o invasor se jogasse para o lado e fugisse da mira. O barulho da arma sendo recarregada rompeu o zunido da recente explosão...

– Parem com isso! Querem destruir a minha casa? – a voz grave encheu o aposento, mesmo abafada, vinda de outro cômodo da residência.

Do banheiro, pouco mais de dez metros distante da entrada, saiu enrolado em seu roupão um sujeito esguio, de um metro e setenta e cinco centímetros, branco-queimado-de-sol e ostentando um cavanhaque bastante negro e um sorriso debochado que era desmentido pelo seu olhar triste.

“E vi um anjo forte, bradando com grande voz: Quem é digno de abrir o livro e de desatar os seus selos”?
Apocalipse 5:2


O homem no roupão era um traficante decadente de quarenta e poucos anos, que perdera sua parcela do mercado, mas mantinha-se vivo submetendo-se aos novos “donos do pedaço”. Apesar de ter perdido o posto de mais proeminente, ainda sustentava o posto de mais esbanjador devido ao cuidado com sua imagem e com o interior de sua casa – que parecia outro universo se comparado ao exterior.

Não demonstrou horror nem qualquer outro sentimento ao chegar ao hall de entrada da casa e se deparar com o encapuzado segurando uma faca ensanguentada e com o cadáver de seu “soldado”. Menos de trinta segundos separaram o tiro do encontro entre invasor e proprietário.

– Parece que o ódio move montanhas, afinal – disse olhando nos olhos quase arregalados de raiva de seu oponente. 

“E eu chorava muito, porque ninguém fora achado digno de abrir o livro, nem de o ler, nem de olhar para ele”.
Apocalipse 5:4


Um berro. Corrida. Soco. Mais soco. Chuva de socos. Totalmente imobilizado, o traficante de remédios raros olhava para o teto adornado de sua casa enquanto aquele que ansiava por sua morte o estrangulava. 

– Por quê? Por quê? POR QUÊ? – Os berros do agressor saíam guturais, as lágrimas escorriam de seus olhos. A vingança não traria de volta a sua família.
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Continuaria, mas aí o título perderia o sentido.
:p

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Viva La Merda Rises


“O que você está fazendo?”, perguntou um amigo do cara sentado no sofá de uma república qualquer perto de qualquer universidade dessa merda desse país.

– Bebendo, oras – respondeu o rapaz de semblante cansado, com marcas de um profundo roxo abaixo dos olhos, cabelo despenteado e olhar distante, enquanto tomava mais um gole da cerveja pielsen comprada num bar frequentado por diversos bêbados-de-fim-de-semana que resolveram se arriscar fora do “turno” e bebiam em plena quinta-feira.

– Está bem, vou reformular a minha pergunta. O que você está fazendo com a sua vida? – insistiu o amigo.

– Bem, você quer saber sobre a minha vida, né? Então, para te responder de forma satisfatória, eu vou começar pelo começo...

“A minha existência se resumia a uma minúscula probabilidade de não ser desperdiçado em várias ações que envolviam meu pai e suas paixões. Espera. Isso não importa. Fui além do começo! O começo mesmo pode ser considerado o sagrado momento tão banalizado pelos filmes pornôs que é o ‘jorro da vida’, o ‘espirro do gigante’, ou como queira nomear. Enfim, o momento – que espero que tenha sido bom para as partes envolvidas – em que meu pai e minha mãe faziam sexo casualmente, sem nem pensar na merda que estavam fazendo. É incrível como, antes mesmo de me conhecerem, eles já estavam sendo tão injustos comigo. Daí eu cresci dentro da minha mãe, onde minhas habilidades de parasita foram bastante desenvolvidas, mesmo que inconscientemente. Depois do parto teve todo um trabalho de padronização do uso do meu cérebro, infância dolorosa, adolescência patética até o júbilo existencial do meu primeiro contato com o álcool. E é a partir dessa gama de acontecimentos – resumidos de forma magistral por mim – que temos os componentes básicos para que possamos, enfim, formular uma resposta contundente à sua capciosa pergunta, qual seja, ‘estou bebendo, oras’”, respondeu “de forma satisfatória” o decadente rapaz.

– Ok, Babaca. Mas tem algum motivo para você estar bebendo tanto ultimamente? – retrucou o amigo num tom áspero de quem se arrependeu por ter iniciado um diálogo.

“Pô, então, essa sim é uma resposta complexa de ser dada. Vamos pular toda a construção histórica que foi necessária para que a cerveja se tornasse um elemento tão proeminente na cultura brasileira e vamos ao que importa. Sexta-feira passada eu decidi beber por uma questão de pertencimento a um grupo social, no caso, os universitários. Partindo dessa vontade de ser considerado igual dentro desse círculo social, fui a um barzinho aqui perto com o pessoal da minha turma e bebi bastante. No sábado eu decidi beber porque estava com uma ressaca muito forte e dizem que nada é melhor para curar a ressaca do que uma nova bebedeira. Dessa forma chegamos ao domingo, dia de churrasco de família, isto é, dia de todos os elementos constituintes do grupo ‘família’ variarem numa escala de ‘levemente embriagado’ até o sensacional ‘bêbado como um gambá’ ao qual tenho o orgulho de dizer que fiz parte naquele dia. É uma pena que após um domingo vem uma segunda-feira e precisamos voltar à miserável rotina de trabalho. Por esse motivo tive que beber na segunda-feira no happy hour com o pessoal da repartição. Precisava aceitar o meu triste fado de que a vida não se resume aos fins-de-semana. Na terça eu resolvi beber em homenagem ao grande Tyr, que é quem deu origem ao nome do dia no idioma inglês. Chegamos então ao dia de hoje que é o dia cabalístico no qual resolvi decidir o que vou fazer da vida agora que optei por largar a faculdade. Logo, decidi que vou fazer o que faço de melhor: beber”.

– Certo, então. Vou pra casa da Júlia. Vê se não se mata de beber, hein – alertou o amigo enquanto fechava a porta com a mesma mão em que carregava uma sacola cujo conteúdo seria apreendido por policiais em menos de trinta minutos.

O beberrão espreguiçou-se e pensou: “melhor comprar mais umas cinco garrafas de cerveja antes que a vida acabe. Ih, tem jogo do Flamengo hoje. Melhor comprar vodka”.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Tinta, Pixels e Alucinações Vampíricas


A "beleza" da esperança é apenas o reflexo da inércia. Uma ilusão que alimenta o coração desafortunado e a alma desamparada.
Esperar não é dançar.
A fé no amanhã só não é pior que a nostalgia do passado.
Agir é sinônimo de viver. Escolher é o sentido da vida. Alternativas que nos escolhem; opções que escolhemos.
Mas lembre-se: se a vida fosse Bella, eu seria o Edward.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Sobre a Igreja Católica ou o Petróleo. Ou os dois. Ou nenhum



Você está de pé.
Você está de pé e com muita fome.
O fim da linha está logo à sua frente - de forma literal, digo.
Bem em cima da última estação de trem da linha Vitória/Minas um arco-íris começa a se formar.
Você está ouvindo Marilyn Manson. Não é a trilha perfeita para observar um arco-íris.
Você vira pouco mais de 90º para a direita e nota uma densa nuvem de fumaça negra. Ou o Vaticano resolveu escolher o novo papa perto do Terminal de Jardim América - e não chegaram a conclusão alguma - ou há algum derivado do petróleo pegando fogo. Ou os dois. Ou nenhum. Mas agora a música "Disposable Teens" se encaixa melhor no contexto.

"And I'm black rainbow
and I'm an ape of god".

Você sobe no ônibus e depois de um tempo olha para a janela. Tanto a fumaça quanto o arco-íris estão em seu campo de visão. Aquilo te interessa.
Você para pra refletir num possível significado daquela imagem e olha para um ponto qualquer sem prestar atenção ao que sua retina capta. Decide olhar de novo para a fumaça e o arco-íris e vê um avião passar entre os dois. Muito interessante.
O ônibus faz uma curva e o arco-íris sobrepõe a fumaça. Tá cada vez melhor.
O ônibus curva novamente e ambos saem do seu campo de vista. Ahhh.
A viagem prossegue e, cerca de 10 minutos depois, o arco-íris entra novamente no seu campo de visão. A fumaça não. Dessa vez o arco-íris é duplo.
"Can't Stop" começa a tocar e, agora sim, sua contemplação do arco-íris lhe traz energias revigorantes.

"Go write your message on the pavement
Burnin' so bright I wonder what the wave meant".


Você chegou em casa, e ainda está com fome.
"Cacildis, como eu gosto de ver um arco-íris"!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Por que eu defendo a monarquia?


Antes de iniciar a leitura deste texto altamente revolucionário, faça um teste de QI, pois só os inteligentes vão enxergar as verdades descritas logo abaixo. Se seu teste acusou um mínimo de 125 pontos, prossiga na leitura. Se não, você vai pensar que o rei está nu.

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Em todo país que possui uma monarquia existe uma família real. Ora, não preciso de mais argumentos. Se somente uma família é real, as outras simplesmente não existem. Dessa forma, por que gastar fosfato pensando em políticas públicas e et cetera com o irreal?

Imagine só. Nada de políticas assistencialistas, nada de igualdade econômica, empregos, nada de esgoto tratado!

Porém, se minha premissa estiver errada, e os irreais, paradoxalmente, existirem — o que inclui as suas fezes —, não há escapatória e da mesma forma me alegro:

Ou as injustiças acabam, pois só existirá uma família de verdade. Ou, sem esgoto, a merda vai voltar a fazer parte da rotina das cidades, e os ventos vão trabalhar para que o seu cheiro seja inalado por todos os narizes que, gostando ou não, serão obrigados a sentir sua presença.

Aí sim, amigos, as pessoas entenderiam qual é, de fato, o significado de “Viva La Merda!”

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Eronia


“É uma droga” – foi o que respondeu a criança de nove anos de idade ao primo que perguntara qual o significado de “ironia”. Essa com certeza fora a melhor da noite. Bem, a melhor do ano, até então.

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No meio da madrugada de quinta-feira, durante a guerra entre a vontade de dormir e a ausência de sono, assistia a um documentário sobre o efeito da heroína sobre um músico que admirava, até que o celular tocou o tema da fase “Las Vegas” do jogo Top Gear. “Puta burrice tremenda colocar esse toque para mensagens”, pensou.

“Rock épico dos maluco num lugar de playsson nessa sexta. Bora?”

Só respondeu a mensagem quando já estava a caminho do local da festa: “Nóis”.

O amigo que enviara o convite ligou revoltado para o sofredor de insônia no momento em que recebeu a resposta demorada.

- Véi, tu ta de sacanagem. Por que só confirmou agora? Logo agora que já tinha aceitado meu fado de passar a noite assistindo pornografia vietnamita! – esbravejou ao telefone o amigo pouco sociável.

- Mano, para de show. Você mora a menos de 15 minutos da parada. Daqui de onde eu tô, ainda falta uma hora e uns quebrado pra chegar nessa merda. – Sem comentários para o palavreado de dois jovens que há pouquíssimos anos atrás se masturbavam assistindo ao programa “Sabadaço com Gilberto Barros”.

Uma hora e 28 minutos depois, os jovens ingeriam o primeiro gole de bebida alcoólica.

A percepção do, já semi-bêbado, rapaz que se encontrava a dezenas de milhas de sua casa foi sofrendo alterações consideráveis ao longo das garrafas long-neck de cerveja associadas às doses de tequila.

“Engraçado mesmo é pensar que essa merda é feita duma planta que parece babosa! Agave! Isso lá é nome de planta? Esses mexicanos são todos malucos mesmo, só pode. Irado mesmo seria se a tequila fosse bem vermelha. De um vermelho vibrante. Aí, tomaríamos red shots, sacou?”. Seu amigo olhou para ele com uma cara engraçada que o falastrão logo conectou ao significado “sorria e acene”, isto é, seu interlocutor não entendera nada do que havia dito.

Não entender o que o especialista em tequila dizia era quase tão previsível quanto saber que aquela noite ia ter um final inusitado; óbvio, falava engrolado e com tal velocidade que as palavras saíam de sua boca com velocidade muito superior ao bater das asas de um beija-flor.

Enfim a “fase Don Juan” chegava. Aos poucos os dois aventureiros se sentiam cada vez mais atraentes até notarem que uma das garotas mais belas da festa – do universo, como pensavam – estava olhando para os dois.

Chegamos num momento em que precisamos de nomes para os personagens, mas como não garanto que essa história seja fictícia, preservarei os nomes pelos quais minha mente resolveu chamá-los. Sendo assim, chamaremos o fã de músicos ex-usuários de heroína de Juanito e seu amigo apreciador de pornografia oriental de Donizete. Quanto à gostosa, bem, chamaremos de gostosa, mesmo.

Com um andar um tanto quanto trôpego, Juanito vai ao encontro da gostosa, impulsionado - literalmente – por Donizete.

- Oi. – Disse o pedaço de mau caminho, péssima expressão, dicção e gesticulação, Juanito.

- Olá – Respondeu a gostosa.

Duas horas depois os inseparáveis amigos se encontram dançando no salão. Juanito se apóia no chão com o braço direito, enquanto rebola e faz movimentos de vai-e-vem com o braço esquerdo. Donizete rebola por cima de Juanito com expressões de prazer e o cabelo desgrenhado.

Quem olhava jurava que os dois tinham experiência no ramo da pederastia, mas não podia ter certeza. Até que Juanito se levanta, sobe numa mesa e grita – mais alto que o funk: “Atenção para um pronunciamento oficial do secretário de estado, Donizete”.

Donizete desatou a rir, enquanto substituía seu amigo no palanque improvisado e berrou:

“Senhoras e senhores, em verdade, eu, secretário estadual de pederastia e assuntos homoeróticos, vos digo: ninguém é de ninguém!”.

No outro dia, os dois acordaram no campus da universidade onde estudavam que ficava a menos de 10 minutos da boate onde se divertiram.

Donizete: “Cara, lembro de porra nenhuma de ontem. Só uns flashes”.

Juanito: “Mermão, só sei que meu salário todo foi pro saco”.

Um minuto constrangedor de silêncio enquanto os dois refletiam em suas respectivas condições existenciais se passou, até que:

Donizete: “Véééééei, e aquela gostosa que tu trocou idéia ontem?”.

Juanito: “Ah, nem peguei”.

Donizete: “Jura? Depois de 15 minutos, se não pegou, não pega mais! Tu tem que ser mais rápido, cara”.

Juanito: “Véi, você sabe que sou um cara proustiano.As pessoas têm a chance de se tornarem mais interessantes quando você não avança trop vite”.

- Quê?

Fim.